Livros de Sangue: Volume 1 - Crítica

| Título | Autor | Editora |
|---|---|---|
| Livros de Sangue: volume 1 | Clive Barker | Darkside (Brasil, 2020. Trad. Paulo Raviere) |
| Books of Blood vol. 1 | Sphere Books (Reino Unido, 1984) |
Introdução
Conheci os Livros de Sangue há quase dez anos, quando procurava referências para um projeto de horror e ficção especulativa. Tratava-se de minha versão de Twilight Zone que nunca saiu do papel. Daquele período restaram duas convicções. A primeira: só a literatura me permitiria contar as histórias que eu quero. A segunda: Clive Barker é um bruxo. Seus contos se fixaram em minha pele como uma escrita de sangue da qual jamais consegui me desvencilhar. Desde então as suas histórias estiveram presentes em tudo que escrevi. Às vezes de modo inconsciente. Barker divide esta honra com Greg Egan, um bruxo de outra ordem.
Em 1984, a primeira edição americana de Livros de Sangue vinha com as seguintes palavras de Stephen King na capa: "Eu vi o futuro do horror... seu nome é Clive Barker"1. Hoje a coleção de seis volumes e trinta contos é considerada um clássico obrigatório do horror.

Clive Barker é o criador do personagem Pinhead, que apareceu primeiro em sua novela The Hellbound Heart em 1986. Em 1987, escreveu e dirigiu o filme Hellraiser, que o tornou famoso mundialmente.
Os Contos
Livro de Sangue
Com dezoito páginas, este é o conto mais curto do volume. Os parágrafos iniciais narram, com sutileza e poesia, o movimento dos mortos e as vias etéreas por onde transitam. Do lado dos vivos, um romance terno e delicado enquadra os eventos da trama. O enredo amoroso quase sucede em obscurecer a finalidade pragmática da história, escrita para servir como elo de ligação entre os contos da coleção. /Livro de Sangue/ nos introduz com êxito ao universo do autor mas falha em alcançar brilho próprio.
★★★☆☆
O Trem de Carne da Meia Noite
Aqui, somos brindados com uma história alucinante sobre a cidade de Nova Iorque, as suas origens e seu significado para os que vivem nela. Leon Kaufman costumava idolatrar a cidade e tem sua paixão renovada após um encontro bizarro no subterrâneo da metrópole.
Este conto se gravou em minha memória desde a primeira vez que o li quase oito anos atrás. Relendo-o nesse último mês, os sentimentos acumulados desde então vieram à tona com violência. A imagem que eu tinha era a de uma pequena obra-prima, uma dessas histórias definitivas que são sempre lembradas quando mencionamos certos temas. A releitura adicionou detalhes a este panorama conturbado. Apreciei melhor a sofisticação com que é narrado o personagem do Açougueiro, um assassino em série dedicado a uma causa nebulosa e antiga.
Referências subjetivas à alma de uma cidade por vezes me parecem vazias e esotéricas. No caso de O Trem... a assertiva é inteiramente justificada. Leo Kaufman vai da apatia ao transe em sua relação com uma forma ancestral e abominável corporificada no subterrâneo da cidade de Nova Iorque.
Esta é uma obra ímpar na densidade de seus conceitos, na coesão com que os agencia e na maestria com que combina o pessoal, o coletivo e o simbólico para dizer algo verdadeiro e sinistro. Algo tão belo e tenebroso que não conseguimos parar de olhar. Como mágica, O Trem de Carne da Meia Noite é maior que a soma das partes. Transcende as barreiras do humano para dizer algo profundo sobre nós mesmos. Algo que nos aterroriza e preferimos ignorar.
★★★★☆
O Yattering e Jack
Esta é uma divertida comédia de horror sobre um engenhoso demônio tentando enlouquecer Jack Polo, um homem resiliente e de infinita paciência. Esta história lembrou-me do clássico O Fantasma de Canterville, de Oscar Wilde, em que um fantasma falha em aterrorizar um hóspede eminentemente prático, que encara as suas aparições com naturalidade. Aqui, entretanto, as diatribes do ser das trevas são em maior escala, com caráter exuberante e grotesco. O objetivo é o riso mais que o temor, que Barker alcança com facilidade. Se em algumas histórias suspendemos o julgamento até a recompensa de um final estrondoso, Yattering e Jack é um deleite cômico do início ao fim.
★★★★☆
Blues do Sangue de Porco
Redman é um ex-policial contratado como professor em um reformatório. Ao investigar um caso de abuso, descobre uma porca gigantesca em um chiqueiro no interior da imensa propriedade. Circunstâncias místicas envolvem o animal, que talvez seja parte ativa no desaparecimento de alguns alunos.
Uma breve pesquisa mostra que, para muitos admiradores, Blues do Sangue de Porco está no mesmo nível dos outros contos da coleção. Talvez estejam certos. Para este leitor, entretanto, a trama investigativa foi deveras nebulosa. Digo isso com plena consciência das minhas limitações. Não sou dado à decifração e provavelmente não tenho constituição para o tipo de sutileza empregado nesta obra.
Uma vez explicada, a conclusão não é particularmente complexa. A tortuosidade advém do espaçamento entre as informações cuja conexão é apenas implícita. A intenção, me parece, é aproximar o leitor do estado de confusão e assombro do protagonista, progressivamente enredado em um mistério que desafia os princípios fundamentais de sua realidade. Assim como Redman tem dificuldade em compreender este universo aterrorizante, somos convidados a experimentá-lo por meio dos sentidos e do medo.
Ao menos era essa a intenção. Do meu ponto de vista, o autor exagerou na obscuridade, pondo a perder o projeto. O que devia ser uma história de horror tornou-se um exercício intelectual que falhou em ativar as emoções deste leitor.
★★☆☆☆
Sexo, Morte e Estrelas
Terry Calloway é um diretor teatral amargurado às voltas com a estrela de sua peça prestes a estrear. Diane é uma atriz de novela incompetente e superficial. Quando um homem misterioso, de pele seca e retorcida, adentra o camarim, eventos estranhos se sucedem. A arte, os mortos e os vivos, afinal, dividem a mesma cena e a mesma ânsia de existir. Mais que isso seria contar demais sobre essa obra hilariante, excitante, erótica e grotesca em igual medida.
Em tom farsesco, Sexo, Morte e Estrelas é uma macabra carta de amor ao teatro e às artes.
★★★★☆
Nas Colinas, As Cidades
Mick e Judd são um casal recente. Mais velho, Judd é o elemento racional e obsessivo. Mick é artístico e intuitivo. Brigam frequentemente enquanto cruzam a Iugoslávia de carro. Quando pegam uma estrada de terra não mapeada, encontram algo vivo e grandioso feito de gente.
Obra prima absoluta do horror borgiano, este conto desafia a compreensão. Descrevê-lo seria como reescrevê-lo. Fico na fronteira entre dizer tudo ou coisa alguma.
Nas Colinas, As Cidades toca em uma parte de nossas mentes que desconhecíamos até então. Desperta um desejo inconsciente de pertencimento e sentido. A ambiguidade de desejar-se pleno e também parte. O conto é aterrador na maestria com que vai do particular ao coletivo, encenando a metáfora da parte que se dissolve no todo e vive ainda. Um colosso dividido, um trecho que sangra e padece, indissolúvel e distinto no gigante por onde grita.
★★★★★
Conclusão
A escrita de Clive Barker é exata e expressiva. Nunca falta o necessário — sempre sabemos onde estamos e o que há de relevante no cenário. Seu estilo é competente e sensato. Não escreve de modo seco, mas ressalta o essencial enquanto ignora o irrelevante. No gênero horror isso significa que, embora o leitor por vezes chegue ao final de um conto sem saber a cor do cabelo do protagonista, terá sempre uma ideia precisa e inescapável de seus elementos mais funestos. Barker erige, ao redor do leitor, paredes de palavras agourentas. Uma verdadeira prisão da qual a vítima (o leitor) não pode escapar.
Na verdade, não queremos escapar.
O melhor horror é aquele que nos sentimos forçados a acompanhar. A mera listagem de elementos repulsivos não seria suficiente para manter a nossa atenção. Seria como o terror da vida real. Algo trivial que compreendemos de pronto e de que fugimos sem pensar. As melhores obras de horror nos amedrontam e fascinam em igual medida. Sim, o monstro é sórdido e repugnante. Mas deve ser também curioso e enigmático o suficiente para compensar os sentimentos negativos inerentes ao gênero.
Sem o mistério cósmico de sua origem e funcionamento, Pennywise2 é só um palhaço asqueroso. Sem a sua causa nebulosa, o Xenomorfo3 é um assassino mecânico e ignóbil. Sem o histórico perverso de sua família de canibais, Leatherface4 seria apenas um sociopata aleatório e grotesco.
Clive Barker entende isso muito bem. Suas criaturas, ainda que bizarras, são cheias de nuances, racionalizações persuasivas e detalhes intrigantes. Suas histórias funcionariam mesmo se o elemento do horror fosse removido — se sustentariam no drama, nas relações pessoais e especialmente nos elementos de sobrenatural e realismo fantástico. O horror, entretanto, tem a capacidade de nos levar a lugares que nenhum outro gênero alcança. Como uma coceira persistente nos faz perscrutar a ferida e sentir o que há dentro dela. Quando faz uso de criaturas e clichês bem conhecidos, Barker leva as premissas até os limites do concebível, do grotesco e do horripilante. Nas melhores histórias, os três nos atingem de uma vez como uma abominação imensurável.